Sobre o debate na rádio entre os "candidatos menores" à Presidência da República
Tenho feito a cobertura dos vários debates eleitorais que têm acontecido para estas presidências com uma thread the toots para cada um dos debates. Mas visto que este debate ouvi em diferido, vale mais escrever tudo num artigo aqui no blog do que estar a fazer uma thread gigante... e publicá-lo antes do debate televisivo que vai acontecer dentro de minutos e que terá, finalmente, todos os 11 concorrentes.
Três candidatos que têm sido posto de lado nos debates e tudo o mais têm finalmente tempo para debater... na rádio, entre eles. Aqui fica um resumo do debate de ontem entre André Pestana (AP), Humberto Correia (HC) e Manuel João Vieira (MV).
0 - apresentação: AP é a favor dos trabalhadores, contra elites e priveligiados; HC é contra a pobreza e vai fazer campanha vestido de Afonso Henriques para invocar o orgulho na história de Portugal; MV só desiste se for eleito.
1 - O que mudava em Portugal se fosse eleito?: AP queixa-se da diferença de tratamento entre estes três candidatos e os outros, jornalista diz que a culpa não é da RTP mas sim das outras rádios que não deixaram. AP defende acabar com os subsídios aos partidos políticos - dinheiro que podia ir para os trabalhadores, deixar de haver portugueses de 1ª e de 2ª. HC sabe melhor o que é ser pobre que os outros, e diz que o maior problema é a habitação, e ele concorre para resolver isso, com construção de habitação social, com casas de 30m2 a 90€ mês, 50m2 a 150€ de renda. MV quer mais espontaneidade e não ia cantar de galo, e a sua mais valia é a inexperiência. Seria uma presidente espetacular porque quando se demitisse "teríamos uma verdadeira democracia" porque o presidente da AR assumiria as funções de presidente. É preciso de pensar em modelos de ficção científica, antes que a ficção científica pense em nós - a pena é que quer Inteligência Artificial num túnel para dar um botão a cada português.
2 - PR deve só arbitrar ou tomar partido?: AP diz que tem de tomar partido, ao contrário do que temos tido. HC quer "incentivar os ricos a querer emprego, mas tem de haver equilíbrio". O que quer isto dizer? A entrevistadora não pergunta, porque não leva estes candidatos a sério. MV acha que o presidente deve fazer o que achar melhor em cada situação. Diz que o presidente devia-se ter pronunciado quando agora "o Pato Donald Trump" ameaça invadir a Gronelândia.
Agora uma pergunta diferente para candidatos diferentes:
3, AP - se PR toma partido dos trabalhadores não está a não representar todos os Portugueses?: Não, por causa do que a constituição diz, exemplificando com e criticando o silêncio do actual presidente em várias medidas contra a constituição.
3, HC - a cultura e a arte podem ser instrumentos políticos legítimos para um presidente? de que forma?: HC pintou quadros durante vinte anos (o que não responde propriamente à pergunta, mas a jornalista só está a fazer tempo).
3, MV - a sátira é uma forma de intervenção política séria, ou a sua candidatura é só para promover os Ena Pá 2000?: "Não faço a menor ideia", diz ele, mas depois explica que a sátira tem um papel necessário em situações com estas. Critica o sistema americano que ele acha que não é uma democracia.
4 - o sistema político precisa de ser reformado, abanado ou ridicularizado para mudar?: AP - no mínimo abalado, é preciso enfrentar os privilégios de uma minoria; HC - nada disso, é só preciso impôr o cumprimento da constituição, por exemplo no que diz respeito à habitação; MV - as proposta de MV são metafóricas, Portugal não é um país pobre temos é de mudar para objectivos mais grandiosos.
5 - NATO e EU: AP - infelizmente quem lidera agora a NATO é Trump, que é um agressor, antidemocrata, raptor, etc.. Temos de estar totalmente contra e de forma inequívoca a agressão e a presença dos EUA na Venezuela. Critica governo e presidente por não ter tido essa posição, e apela à presença na manifestação de hoje. Hoje é a Venezuela, amanhã é Gronelândia, Panamá, Colômbia, Cuba...; HC queixa-se de que trocaram a estátua de João Vaz Couto Real pela de Simone Bolivar em 1978, diz que é um crime. Portugal não pode sair nem da NATO nem da EU. "E se Trump invadir Gronelândia?", HC diz que isso não pode acontecer porque não pode acontecer. MV diz que está a haver uma mudança brutal no sistema de forças, desprezo pelas normas internacionais, ONU, etc., que Trump e toda a sua cúpula de Republicanos e não só são um problema e que Portugal tem de se preparar de forma inteligente, teme pelos Açores. Temos de pensar por nós, não ser arrastados pela NATO ou EU. Mas depois diz que tem cientistas a inventar a bomba V.
6 - NATO ainda faz sentido?: AP acha que tem de se questionar claramente, porque a NATO está a ser liderado por uma pessoa perigosa, instável e que diz que quer fazer coisas arrepiantes. Portugal tem de optar. É contra a exigiência de 5% na defesa, que é impossível de cumprir sem aumentar desigualdades e degradar serviços públicos. HC acha que não precisamos de guerras mas não podemos sair da NATO, e os 5% da defesa tem de ir mas é para habitação. MV acha que os 5% é para investir na bomba V, que é um laser tipo ficção científica pura.
7 - Saúde: AP diz que é preciso valorizar carreiras e prevenção, HC acha que saúde se resolve com educação (deixarem de comsumir coisas que não devem, usar chapéu ao sol...), MV acha que se devia proibir estar doente.
8 - Eutanásia, precisamos de referendo?: AP não é preciso referendar, só legislar; HC acha que tem de haver referendo; MV quer primeiro uma prostituta psicóloga em cada esquina.
Nova ronda de perguntas distintas:
9.1 para AP - plataforma pessoal?: AP sempre foi activista, isso não é uma questão de ego, é o percurso que fez;
9.2 para HC - estar longe do poder dá-lhe liberdade ou irrelevância?: liberdade;
9.3 para MV - a sua candidatura é um murro na mesa ou um espelho deformado?: o centrão e a imprensa fabricaram a extrema-direita;
10 - Portugal precisam ou não de imigrantes?: AP diz que sim e cita números dos próprios empresários, desmonta o discurso de Ventura; HC não podemos viver sem eles, mas precisamos do SEF nas fronteiras outra vez; MV diz que não é ele que está a gozar com a situação, mas quem quem está a gozar é quem criou a situação.
Nova ronda de perguntas distintas:
11.1 para AP - dissolver o parlamento?: depende da situação;
11.2 para HC - presidente deve ser incómodo?: pode incomodar;
11.3 para MV - aceitaria ser levado a sério?: talvez, mas a graça nunca se perde.
12.1 para AP - cultura é pilar da democracia ou luxo?: pilar;
12.2 para HC - liberdade cultural e valores nacionais, onde traça o limite?: ambas coisas são boas, não responde quanto ao limite;
12.3 para MV - provocação cultural é forma legítima de intervenção política?: às vezes é a única à qual as pessoas têm acesso;
13 - qual dos outros dois nunca convidaria para Belém?: AP não tem nada contra os outros; HC "isso pertence aos Portugueses"; MV convidava todos para uma jantarada;
14 - maior erro que poderia cometer como presidente?: AP diz que o maior erro seria não ser coerente com o que defendo, mas não o cometeria; HC acha que seria um erro meter a vida dos Portugueses em risco; MV acha que seria um erro não se demitir depois de ser eleito;
15 - preferia ser lembrado como inútil, perigoso ou ridículo?: AP e HC dizem nenhum dos três, MV diz que é os três, mas também a única esperança para este país;
16.1 para AP - se não for eleito, a sua candidatura falhou ou cumpriu o seu objectivo?: depende do número de votos;
16.2 para HC - o que perderia se ganhasse?: nada;
16.3 para MV - se ganhasse, deixava de se candidatar?: sim, mas antes de se demitir ainda tomava umas medidas necessárias e justas;
17 - que país gostaria de deixar depois de 5 anos como presidente?: AP - país mais justo, em paz, e sem cidadãos de 1ª e de 2ª; HC - Portugueses com mais poder de compra; MV - Portugal como a primeira potência mundial.
Notas pessoais:
- nunca me ri tanto num debate. Obrigado Vieira, prometo que na primeira volta não voto em ti!
- Diga-se o que se disser de Pestana, e mesmo que se o menorize, ele é melhor candidato que bastantes dos "outros oito"...